O meu Piu-Piu acordou hoje às duas da manhã. Pediu para ir à casa de banho e depois veio uma frase já frequente: ‘Não quero dormir mais…’
A minha menina não gosta da noite. Não tem medo do escuro, mas sonha com monstros. Culpa de um-ser-não-humano-que-se-apelida-educadora que, no ano passado, a maltratou. Com a conivência de uma casa-que-se-apelida-infantário. Parece anedota, mas não é: perante pesadelos, chichis pelas calças abaixo ao longo do dia, agressividade, recusas em ir para a escola, etc., vários pais descobriram que havia cadeiras a prender as cabeças à hora de dormir, crianças postas de castigo na mesa dos bebés, apelidadas de ‘más’ se faziam queixinhas’ aos pais, desenhos rasgados se não estavam perfeitos (como é que aos 3 anos fazemos desenhos perfeitos?), etc. A casa-que-se-apelida-infantário foi avisada e o-ser-não-humano-que-se-apelida-educadora confirmou o seu comportamento. Mas aconteceu… nada. Pois. Quando, veio-se depois a saber, já não eram as primeiras queixas apresentadas contra a mesma figura. Nem as primeiras agressões. Nos anos lectivos anteriores existiram também. Algumas denunciadas à Segurança Social, que também não se mexeu.
No fim do ano, oito crianças abandonaram a instituição. Vão-se embora os agredidos, enquanto os agressores continuam no mesmo sítio. A casa-que-se-apelida-infantário contava resolver o problema assim: ‘os pais tiram-nos e esquecem’.
Tiveram azar, desta vez, com os pais que lhes apareceram à frente. O meu Piu-Piu está a ser acompanhado e recupera agora a alegria, a serenidade, a autonomia, a vontade de escrever o seu nome, de aprender a fazer contas e de desenhar sem ser a preto. E o caso seguiu para tribunal, passando por cima da SS, com outros que se juntaram. Para surpresa da casa-que-se-apelida-infantário, que tremeu ao descobrir que há pais que não esquecem, porque não querem para os outros o sofrimento que lhes entrou pela casa dentro.
Eu sou católica. Tenho uma Fé posta à prova várias vezes, que esclareci e aprofundei. É uma Fé discernida, madura, feita de reflexão e de escolha consciente de valores e opções. Uma Fé que me faz saber que, se há vezes em que devemos dar a outra face, há outras em que é preciso pegar no chicote para expulsar vendilhões do templo. E custa-me ver uma IPSS da minha Igreja cair nesta podridão. Eu não meto todos no mesmo saco. Considero-me uma pessoa boa que trabalha com e na Igreja e há gente muito boa nela também que faz muito, imenso pelos outros. Há padres também que nos ajudaram e que disseram inclusive ‘eu, por muito menos, já despedi muitas!’ Mas sei que basta uma ou duas figuras de responsabilidade actuarem assim para estarem a contribuir para o mal do mundo, logo numa Instituição que defende o Amor.
Quem mata a inocência de uma criança mata o vislumbre do Paraíso. Mata, por isso, Deus. E Ele, às vezes, parece tardar. Mas eu creio que Ele, apesar disso, não falha… E sabe quando usar o chicote...