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sexta-feira, 16 de abril de 2010

Dos amigos (1)

Quem viveu muito tempo em silêncio, como eu, e quase se engasgou de tanto calar, dá valor, muito valor aos espaços em que pode partilhar o que vai dentro. Não estou a falar de coisas simples, tipo conversa de café, que tenho com pessoas de quem gosto muito. Estou a falar daquelas conversas fundas que se têm com quem sabemos que nos compreende.

A palavra é mesmo compreensão. É podermos falar sabendo que do lado de lá, ao invés de vir um 'não sei se é assim' ou um 'devias era fazer isto ou aquilo' está alguém que diz 'Compreendo. O que estás a dizer é isto e faz sentido.' Ser muito inteligente ou pensar muito faz disto. É muito frequente, quando converso com alguém, dar por mim a encolher os ombros mentalmente, ao mesmo tempo que penso 'olha, mais outro que acha que sabe o que eu sinto e não ouve o que eu estou a dizer'.

Talvez por ter esta consciência tão brutal de que se contam pelos dedos de uma mão as pessoas onde consigo espelhar a minha alma, qualquer uma delas faz-me uma falta imensa e agarro-me como uma lapa a todas. Não quero perder nenhuma, todas são espaço, refúgio meu onde descanso, onde me encontro, onde me pacifico.

É tempo, agora, de mudança a este nível. Começa a desenhar-se uma nova fase onde uma destas relações vai mudar. E eu aguardo o que aí vem com calma, ainda que não saiba o que vai acontecer ao certo. Ecoa só na minha cabeça um 'tu não me vais perder'. Que me sossega.

Há amigos assim. Que valem ouro.

segunda-feira, 12 de abril de 2010

Do que me diverte

De volta a Lisboa, depois de uns dias de férias merecidos. Bom... Poucos dias de férias, tinha-me sabido bem parar mais tempo. Mas o trabalho não se compadece, pelo que...

Volto e sorrio nesta cidade onde desde sempre tenho registado pormenores engraçados. Coisas que guardo e que me sabe bem recordar. Tenho vindo a gostar cada vez mais de andar de transportes públicos. Pelo que se observa, pelo que se aprende.

Hoje foram duas senhoras a sair do metro. Procuravam uma porta para passar o cartão (estão a ver aquelas portinholas que abrem e fecham em cada saída de metro?). Uma vermelha, outra também. Uma estava verde. Aquela mais larga, destinada a carrinhos de bebé ou malas, por exemplo. Mas não saíram por aí porque uma comentou: 'Essa não! É para grávidas!'

Quase me escangalhei a rir. Valha-me Deus, se uma grávida precisasse de sair por aquela porta seria gigante!

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Dos laços

Hoje a P. entrou-me no msn. Com uma música que eu adoro e que já não ouvia há muito tempo. Esta:


Mal ela sabia que me caía que nem uma luva... Mas ficou a saber. Conversa de muito tempo, de contar novidades, de falar do que vai cá dentro. A P. conhece-me do avesso e sorriu, muitas vezes, do lado de lá dos quilómetros que nos separam, nesta distância que é muita e nenhuma. Para ela também não há muralhas aqui dentro. Há vida, esta vida que ela me ajudou a ter e me ensinou a cuidar. Tive várias mãos que me ajudaram a erguer neste caminho pedregoso e duro. As dela foram as primeiras que procurei, as primeiras que aceitei. Sem subterfúgios. Na esperança de dias melhores. Que chegaram, como ela sempre disse que chegariam. E assim se criam laços e se prendem pessoas ao nosso coração...

sábado, 16 de janeiro de 2010

Do risco

Eu sei, desde há muito tempo, que chega sempre o momento de arriscar. E, em muitos aspectos, eu tenho arriscado muito nos últimos meses. Em alguns campos da minha vida, a mudança foi gigantesca. Foram tempos de enfrentar desafios e medos, de partir pedra, de afastar calhaus do caminho. Pus mãos à obra e reergui muito do que estava destruído, muito do que queria construir e nunca consegui.

Há, no entanto, mais para vir. E sinto-me agora numa encruzilhada que me é de alguma forma familiar. O que é bom, mas ao mesmo tempo é um problema. É bom porque é sinal que a vida renasce dos escombros para um futuro que ainda não se escreveu e em que posso redesenhar os meus sonhos. É um problema porque implica lidar com as memórias da devastação e com o medo profundo, profundíssimo, de que se repita.

Sei que tenho agora muito mais do que antes em termos de protecção. Tenho, por um lado, uma consciência muito mais clara de mim mesma, dos meus 'mecanismos', dos meus vícios e das minhas virtudes em matéria dos outros. E tenho mãos, várias, que me podem agarrar e sustentar no caminho, se voltar a ir por aí abaixo. Mas não deixo de ter medo, um medo pesado.

Nunca me pararam, os medos, mais cedo ou mais tarde eu passei por cima de todos. Mas aqui na fronteira, aquela que medeia entre o recuo ou o risco, estou agora com o medo nas mãos, à espera. À espera do momento em que o vou atirar para trás e vou dar o passo em frente.





quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Da liberdade

Hoje andei a passear e deparei-me com uma imagem que me lembrou que anteontem sonhei com isto:


Mais concretamente, sonhei com as três primeiras frases. Ao acordar, lembrei-me do que é que me espanta numa relação. Do que é que procuro. Liberdade. Tão só e tão simplesmente liberdade.

Dizem que o amor liberta e é verdade. Eu já senti a liberdade de ser exactamente como sou, sem subterfúgios, sem esconderijos, sem medos. Poder ser como sou, cantar, dançar, brincar, dizer asneiras, gritar, preguiçar, chorar, parvejar sem barreiras. Ser só eu, tão descansadamente eu. A ponto de dormir tranquila e profundamente ao lado de alguém, quando por norma tenho um sono leve, leve.

Sempre me espantou esta sensação que não consigo descrever. Senti-a ontem, outra vez, no meu sonho. A relembrar-me do que é que ando à procura. Até lá, tenho liberdade comigo mesma.