Pusemos no facebook o nosso ‘estado’. Agora que a família
está avisada (descobrir pelo facebook é no mínimo surreal). E, das muitas
manifestações de carinho e parabéns que recebi, algumas fizeram-me olhar.
Amigos que me dizem que estão felizes por mim porque eu mereço. E alguns a
dizer que têm é de felicitar o noivo, porque é um sortudo. Quando vem de quem
me conhece e sabe como eu sou, não me admira. Mas quando vem de pessoas com
quem convivi muito pouco, faz-me pensar o que viram em mim que é tão digno de
tal elogio.
O dia dos namorados foi há uns dias. Não tive um dia, tive
três. Porque começou com teatro no sábado e acabou já na terça de manhã. Do R.,
mimos. Com ele a dizer-me ‘Eu, se desse isto a outra mulher qualquer, ela
ficava a olhar e a pensar que eu lhe devia era ter dado uma carteira’. Mas eu
não trocaria por nada o vaso, a terra, as pás e as sementes de girassol que
recebi, entre outras coisas. Às vezes, o R. lembra-se de me dar as coisas mais
estranhas, para a maioria dos mortais. Mas são coisas que eu adoro e que nunca
me lembraria de dar a mim mesma. Talvez por isso fique calada, a olhar. A
sentir que ele me vê. Como ele vê dentro, lá fundo, de mim. A perceber que amar
é sentir o outro, é estar atento.
A: De certa forma, tu és e sempre serás uma desalinhada.
M: Pois sou. E sempre serei. Daquelas que, mesmo que marchando no batalhão, gosta de pôr o pezinho de fora.
A: É! :)
M: O mais giro de tudo é que, quanto mais o faço mais me convenço que o posso fazer. Como o chefe do batalhão não está habituado, não sabe o que fazer comigo!
A: Eh eh
M: O que ainda me dá mais vontade de desalinhar tudo. Um dia destes marcho para o outro lado.
Regressei hoje a Lisboa, depois de uma semana fora. Foram dias de festa, de fechar assuntos, de tratar de papéis. De coisas prosaicas, como pagar contas, e de outras tão únicas como enviar pedidos de proclamas para vários sítios (é o que dá termos andado a saltar de terra em terra ao longo da vida). De algumas conversas muito boas, como a da M. que chorou ao telefone quando lhe disse que me ia casar e me confessou a sua alegria ('era uma coisa que eu sabia que te fazia falta e que me entristecia, porque tu merecias...').
O fim de semana foi diferente, fora de casa, em voluntariado. Alguns conhecidos, muitos desconhecidos. E mimos-surpresa. Como a daquela senhora já de idade que resolveu dar-me uma prenda em frente de toda a gente, dizendo que identifica, no meu percurso de vida, muitas coisas idênticas ao dela. Ou de um outro alguém que resolveu dizer que Lisboa não me 'estragou' (i.e., não me subiu o poder à cabeça lá por ter andado algum tempo em cargos de chefia) e que era bom ter-me de volta. Ou o abraço enorme e apertado do R., ao chegar a sua casa, Domingo ao fim da tarde, depois de dois dias longe (as saudades não se contam pelo número de dias, sabem?)
No comboio trabalhei e dormi, de tão extenuada que me sinto. Ao fim de umas semanas em turbilhão, cansada de tentar entender algumas pessoas, sinto que agora começo a descansar a minha cabeça e a retomar a minha tranquilidade feliz. Foi muito importante esta semana para retomar o equilíbrio, para me sentir de volta a mim mesma. De alguma forma, todos estes mimos e outros mais fizeram-me bem. Volto a sentir um carinho grande das pessoas que me deixa (como sempre que ando assim meia perdida) a olhar, mas que me ajuda a ver de outra forma e a voltar à superfície. E é por isso que, no meio do cansaço, descanso.
Tenho andado desaparecida daqui, eu sei. Muita coisa no mundo lá fora, um turbilhão por dentro acompanhado por muitos afazeres por fora. O Gato e eu vamos casar a 30 de Abril (ainda não sabiam, pois não?) e temos, por isso, muito para fazer.
Para além dos preparativos propriamente ditos, há todo um conjunto de novos mundos a serem criados. As casas, os planos sobre onde viver, como gerir os trabalhos, o que continua a ser de cada um, o que passa a ser comum, as famílias. Quem pensa pouco se calhar vive melhor, porque vai-se deixando passar pela vida. Quem pensa muito, como aqui a je, às vezes precisa de entrar em baixa rotação, tal a forma como centrifuga. Sobretudo quando sente que nem todos os que gostava de ter perto têm disponibilidade para tal. Mental, não física. É uma questão de sintonias: às vezes não existem na mesma proporção para dois lados. E nem sempre é fácil lidar com estas constatações.
Ando assim, oscilante, um pouco como o tempo, ora lento, ora vivaço. E nesta oscilação, o meu lado solitário tornou-se mais presente. Não é uma solidão feita de silêncio. É feita de espaço meu, individual, no meio de toda a gente que vai compondo os meus dias. O espaço onde me tento entender, onde rumino, onde arrumo os pensamentos. Que às vezes é feito de espaço físico, porque há sítios onde não me apetece estar.
Entetanto, chegou-me ao mail, pela mão da Marisa, este conjunto de pensamentos que me fizeram sorrir. Porque, em grande parte, reflectem o que penso e sempre pensei: ama-se não porque se precisa de companhia ou porque não há ninguém melhor, mas porque se olha para o outro e se gosta do todo que ele é. E é-se amado porque alguém olha para nós e gosta do todo que somos. E o amor de dois todos é bom, muito bom. :)
Bom dia de sol para vocês...
PS - Para as meninas cá da toca (sim, conversa de gajas): já tenho vestido, lindo, lindo, mas não posso mostrar aqui porque o Gato veria! ;)
Ontem foi dia de aniversário de casamento dos papás. Quarenta anos bem cheios e medidos. Para quem, como eu, anda a pensar em dar o nó, fica o sonho de lá chegar.
Nunca pensei que, dez meses depois, estaria tão feliz, tão leve, tão segura. Nunca pensei que, em dez meses, avançaria tanto no meu caminho. Mas cá estou, cá estamos, a correr. Vale a pena lutar por aquilo em que acreditamos. Ó se vale...
Ontem li duas coisas que me deixaram a pensar. Dúvidas de amor eterno aqui, uma certeza aqui:
"a vida tem estranhas maneiras de nos fazer ver que não ousar seguir o nosso amor é a verdadeira fragilidade".
Eu penso que, quando se pensa em partir para um futuro de mão dada com alguém, há que fazer bem o trabalho de casa. Conversar até à exaustão sobre tudo, mesmo o que incomoda ou magoa. Observar-se a si mesmo e ao outro. Pensar se o que se quer coincide com o que se tem. Não chega viver dias idílicos, é preciso usar a cabeça. Depois, se o caminho for para ser trilhado a dois, apostar no eterno. Há uns dias atrás, dizia-me um casal que saberem que tinham prometido ficar juntos para sempre (de verdade, saído do fundo do coração) era um descanso. Porque sempre que tinham dificuldades, nunca pensavam em desistir, em abandonar ou em serem abandonados, mas sim em como ultrapassar mais um obstáculo. E, a cada um que surgia, sentiam-se mais fortes.
Eu acredito que um casamento só vale a pena se for vivido com esta força de quem quer muito ficar junto para sempre. Como acho que quem pensa que a vida é feita obrigatoriamente de 'casa-descasa' (ai, nada dura para sempre) perde muito.
Tenho-me lembrado de que, há um ano atrás, conversei várias vezes com amigos que me diziam que devia tentar qualquer coisa que aparecesse porque podia ser que resultasse. E que me devia deixar de sonhar com o Amor e com uma relação sólida, porque isso não existia. E eu respondia que, ou era a sério ou não era. Que eu não era descartável e não queria quem se achasse também descartável. E que só valia a pena envolver-me com um Homem que me quisesse com todas as suas forças e sem tempo marcado. E encontrei...
Às vezes, eu e o R. comentamos que, quando começámos a namorar, sabíamos bem o que cada um de nós queria e ao que ia. É bem verdade. Foi jogo limpo desde o início, sempre, que nem eu nem ele sabemos jogar de outra maneira. E é esse mesmo jogo limpo que me faz acreditar que nós, se quisermos, podemos chegar longe de mão dada. Tão longe quanto as nossas vidas permitirem.
Foi por isso que aqueles dois textos me chamaram a atenção. Eu acredito no casamento para sempre e não penso ter outro de outro tipo qualquer. E hoje, com o R. a meu lado, sinto que não há medo que me torne frágil e me impeça de seguir o meu Amor.
...é querer correr a toda a velocidade e sentir que estou sentada sem vontade de me mexer. Lá chegarei, mas por agora não sei o quando, nem o onde, nem o como. E neste contra-senso encontrei paz quando percebi que estou no meu espaço e que o melhor que tenho a fazer é sentir-me confortável comigo mesma. Mesmo que isso implique estar sentada a pensar que quero correr.
Há relações que duram e duram e duram anos a fio sem que se passe nada. Ou seja, as pessoas vão-se encostando uma à outra, namorando, vivendo a sua vida, cada uma no seu espaço, vendo-se aqui e ali, sem pensarem muito no assunto. Até que um dia dão por si mesmas sem saber o que fazer. Olham para o lado e vêem que, se calhar, o outro gostava de ter uma coisa que não tem. Ou elas gostavam de ter uma coisa, mas o outro lado não está interessado ou nunca pensou nisso. E aqui é que a porca torce o rabo. Porque alguns dão consigo numa espécie de armadilha e a perguntarem-se onde é que se perderam dos seus sonhos.
Detesto esta sensação de desassossego que advém de situações que me escapam, que não mereço e não consigo controlar. Lá acontece, de vez em quando, sentir o mundo a rolar ao contrário, para longe do que era previsível acontecer. Forças que puxam para um lado em vez de puxarem para outro, o que me deixa inquieta e desconcentrada.
Sei, contudo, que depois da tempestade vem a bonança e que há coisas que, de facto, não importam nada para a minha vida. E por isso, dê lá por onde der, eu sei que me ergo e avanço em paz, deixando para trás as migalhas.
Gosto de viver em zonas antigas, com velhotes por todo o lado. Porque, ao invés da correria de quem vai trabalhar, podemos observar a calma, o tempo a passar sem correr. E podemos sentar-nos a conversar sem que olhemos de lado ou nos olhem de lado. Acontece na farmácia onde duas velhotas se sentam a conversar, na paragem do autocarro onde agradecem o assento livre, no autocarro onde perguntam qual é a paragem mais próxima do hospital ou contam histórias sobre vidas já passadas. Eu, que gosto mais de conversar do que de ginjas, divirto-me a ouvir, a observar, a falar.
No meio de tudo isto, apercebo-me de que a conversa esconde muitas vezes uma imensa solidão. E que é ela que traz para a rua, que impele a procurar alguém com quem conversar, que leva a pedir, subtilmente, mimo.Toda a gente precisa de mimo. E às vezes basta um sorriso para que ele se faça sentir.
Outra: O meu Anjinho de Natal este ano é a B., que pediu um Nenuco. E leva um, juntamente com roupas de boneca para mudar, 'comida' para dar ao bebé, chocolates e um fato de treino de princesa, com estrelinhas cor-de-rosa. Com o patrocínio do Ouriço, do "padrinho" R. e da avó emprestada. É bom poder dar prendas destas.
Fim de semana estranho, este, que começou sábado à noite e acabou hoje de manhã. Mas guardo algumas coisas dele.
Uma: "Parabéns!" E um abraço apertado.
Quem quiser, e puder, que isto este ano não está para brincadeiras, que tal receber uma prenda pensada, na forma de um brinquedo para uma criança que não se conhece? O meu Natal, o ano passado, teve a magia de me deixar, até hoje, a pensar se a D. gostou do que a Mamã Natal Ouriça escolheu para ela. Foi a prenda que dei a mim mesma e dura até hoje, a recordação de uma boneca escolhida com todo o carinho do mundo. Porque o Natal vem aí e porque há muitos Anjinhos a ansiar por um sapatinho com qualquer coisa, vamos lá fazer uma criança feliz!
Avizinham-se, num destes próximos fins de semana, momentos interessantes de aprendizagem e conversa. Mas, tal como olho para esse tempo com esperança, temo também o que pode vir. Nestas coisas das descobertas, há sempre a hipótese de nem tudo correr bem e de darmos por nós em terreno desconhecido e completamente novo. Ou de olharem para nós como terreno desconhecido e completamente novo.
O problema, no meio disto tudo, são de novo os fantasmas que reaparecem na minha toca. Embora 'chutados' para o lado, ainda não desistem e continuam aqui na soleira da porta, à espera de conseguir entrar. São lixados os meus fantasmas, fazem-me puxar de todas as armas e mantêm-me num estado permanente de alerta, à espera do próximo embate.
Precisava de me sentar à sua frente, a enfrentá-los, para perceber e sentir, de uma vez por todas, que não têm já a força de outrora nem as mesmas 'condições de vida'. Precisava de falar, falar, falar até os rebentar de tédio, de susto ou outra coisa qualquer. Precisava de não sentir a ameaça no ar. Não consigo. Ainda não consigo. Mas sei que não quero mais sentir-me assim.
Por isso, e embora pelo meio vá falar, falar, falar, que eu sei, aguardo sobretudo pelo que vem aí com a esperança (misturada de medo) de voltar à minha paz.
Ando a precisar de tempo. Tempo para mim, para parar e descansar, para pôr ideias em ordem, para estar. Para ir dar uma volta, para ir ver montras ou tão simplesmente para me sentar num qualquer lugar à beira rio a ver a água ondular. Esta coisa de poder controlar o meu próprio horário tem o lado negativo de acharmos que fazemos sempre pouco. E, quando damos por ela, estamos a ir de casa para o trabalho e do trabalho para casa sem que haja um momento, umas horas, uns minutos de paragem. Tenho saudades de mim.
Tens o condão de me fazer acreditar. Em mim, em ti. Amo-te. Cada vez mais.
If You Were A Sailboat - Katie Melua
If you're a cowboy I would trail you,
If you're a piece of wood I'd nail you to the floor.
If you're a sailboat I would sail you to the shore.
If you're a river I would swim you,
If you're a house I would live in you all my days.
If you're a preacher I'd begin to change my ways.
Sometimes I believe in fate,
But the chances we create,
Always seem to ring more true.
You took a chance on loving me,
I took a chance on loving you.
If I was in jail I know you'd spring me
If I was a telephone you'd ring me all day long
If was in pain I know you'd sing me soothing songs.
Sometimes I believe in fate,
But the chances we create,
Always seem to ring more true.
You took a chance on loving me,
I took a chance on loving you.
If I was hungry you would feed me
If I was in darkness you would lead me to the light
If I was a book I know you'd read me every night
If you're a cowboy I would trail you,
If you're a piece of wood I'd nail you to the floor.
If you're a sailboat I would sail you to the shore.
If you're a sailboat I would sail you to the shore.
"Mudanças. Lentas, mas a revelarem-se. Tudo com muita calma porque não há outra maneira de saborear e apreender. Parece que a pressa é inimiga da perfeição e dos amores-perfeitos..." (pela minha amiga Marisa)
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