quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Recado XIX

Detesto encontrar-te pelas ruas que agora são a minha casa. Detesto as pegadas que reconheço no chão. Detesto que a cabeça me leve para o que já foi, a revisitar o passado. Detesto sentir saudades de um tempo que já não é o meu, do futuro que não foi meu, de ti que nunca foste meu. Detesto a horrorosa sensação de que o meu tempo passou, de que não posso esperar mais da vida, por muito que a esperança não me deixe parar. Detesto os silêncios que continuam a pairar, os fios de água que continuam a correr, os sonhos desfeitos, a vida quebrada. Detesto olhar para trás e achar que nunca mereceste o que eu sou. Detesto a estupidez humana que nos leva a andar no arame, a esperar mais de quem é mais pequeno do que a vida. Detesto o que te confiei e a devastação que causaste no meu mundo. Detesto-me por ter acreditado. Detesto o eterno recomeçar que é a história da minha vida. Detesto o não ver o que vem. Detesto dar dois passos atrás quando o que queria era correr para a frente. Detesto o não conseguir confiar. Detesto a insegurança, o não acreditar em mim, o não conseguir sentir o que sou, apesar de mo dizerem. Detesto não ter braços em que dormir enrolada. Detesto ter de contar só comigo. Detesto ter de lutar tão arduamente por tudo. Detesto o cansaço de andar sozinha com o meu mundo às costas.


12 comentários:

R. disse...

Há por aí espaços que são ainda das memórias. A pouco e pouco, à medida que inevitavelmene os frequentares, serão teus, só teus, olvidando o que já não é na linha do tempo. E há muita coisa melhor a fazer com o teu coração do que destestar, verdade?

Abraço firme,

R.

Jane Doe disse...

Dá-me metade do teu mundo.

Eu ajudo-te a subir.

Apple disse...

Querida Piquinhos,

percebo-te tão bem... são mais que palavras o que aqui deixas, são sentires que também já foram meus e, às vezes, ainda são...Não olhes para trás. De cada vez que olhamos para o que foi ou não chegou a ser, abrimos feridas que ainda não estão bem cicatrizadas, sangramos da alma e do coração, de dores que acordamos e nos retiram a luz daquilo que crescemos, do caminho que, mesmo sós e feridas, já trilhámos e vencemos. Não te detestes, não pelo que acreditaste, pelo que investistes, pelo que deste e pelo que amaste. Quem se dá inteiro é dono de uma coragem que não é comum, é vencedor perante a mediocridade de quem foge ou se esconde. Olha em frente, para o agora… (e perdoa-me tanta “autoridade” mas tenho esta conversa comigo muitas vezes)

M disse...

Também já me senti assim... Mas aos poucos as ruas esvaziam-se das memórias antigas; aos poucos, criam-se memórias novas, mais felizes... ;)

LBJ disse...

Das memórias se fazem forças para um melhor amanhã :)

Joanissima disse...

: )

que texto sofrido...
Um dia de cada vez, sempre...


(tens um abracinho no meu blog)

mf disse...

R.:
Eu sei que é "a pouco e pouco". Gostava é que já tivesse passado.

"há muita coisa melhor a fazer com o teu coração do que destestar"
Verdade. Mas para poder ter todas essas coisas melhores preciso de deitar fora o que não quero. O que implica deixar-me sentir tudo em vez de fingir que não sinto. E vou fazendo caminho assim. :)

Abraço para ti

mf disse...

Jane:
Fizeste-me chorar...

mf disse...

Apple:
"Não te detestes, não pelo que acreditaste, pelo que investistes, pelo que deste e pelo que amaste."

É mais pelo que deixei que acontecesse. Pela ingenuidade. Pelo tempo perdido. É um dos sentimentos que ainda não consegui resolver, embora não desista de o tentar...



"Quem se dá inteiro é dono de uma coragem que não é comum."

Nunca tinha visto esta perspectiva. :)



"Perdoa-me tanta “autoridade”".

Não tenho nada a perdoar, pelo contrário. Perceber exactamente o que dizes é perceber que há mais como eu.

Beijo

mf disse...

M:
Deus te ouça...

Beijo

mf disse...

LBJ:
Podia dar um bocadito menos de trabalho... :)

mf disse...

Joanissima:

O bom é agora conseguir pôr para fora o sofrimento.

Um dia de cada vez, querida, sempre...

E o abraço soube mesmo bem... :)