segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Das relações

Algumas coisas têm-me feito pensar. Nesta Lisboa que é tão igual ao sítio de onde venho ("Consegues viver em Lisboa, M?" - Perguntam-me. "Claro que sim. Sinto-me em casa." - Respondo), há maneiras de ser que me deixam a pensar. Formas de vida diferentes que me fazem repensar e me fazem perceber como sou e como ando. Partilho uma.

Há uns dias, um amigo dizia-me que eu não arriscava nada com ninguém. Perguntou-me quando achava que iria estar 'pronta' para arriscar. E sugeriu, como homem que é, que eu podia pensar em me envolver fisicamente com alguém e deixar correr, 'para ver no que daria'. Sem complicações, sem dramas afectivos. Só instinto a funcionar, à espera que o coração fizesse um click qualquer. Como tanta gente nesta terra parece fazer e, aqui sim, Lisboa é diferente de onde eu venho. Acho eu. Ou então é o meu mundo interior que é diferente.

Percebo-lhe a lógica de homem. Tão típica, eu diria. Mas sinto-me incapaz de me deixar ir numa coisa assim. Primeiro porque eu não consigo dissociar a parte física da parte afectiva. O meu corpo é afecto, dá-se com afecto, sente o afecto. Agradeceria, provavelmente, os mimos de um outro corpo, mas não faço ideia como reagiria depois, à crua luz do dia e da falta de cumplicidade. E não tenho grande vontade de descobrir, porque tenho a impressão de que não iria apreciar a situação.

Não porque não me apeteça. Às vezes só há vontade de sentir umas mãos quaisquer a rodear-nos o corpo e a saciar-nos a fome e a sede e a matar a saudade. Seria capaz, eu sei, até porque é possível usar um qualquer 'botão off' que nos apaga durante algum tempo a razão. Mas provavelmente não aconteceria ao estilo de uma 'one night stand', ou seja, com um desconhecido, porque não sou propriamente dotada de capacidades de me 'acertar' com alguém à primeira. E não me imagino a fazer isto com um qualquer amigo que conhecesse há algum tempo, porque sei que não conseguiria estar com alguém e depois continuar na vida dessa pessoa como se nada tivesse acontecido.

É que não sou capaz de olhar para um homem que comigo partilha a intimidade e ver apenas um corpo... Não dissociando os afectos do prazer físico, acabaria sempre a querer mais, a desejar mais. E, se a relação fosse baseada no prazer físico apenas, não consigo deixar de pensar que acabaria por estar a perder tempo. Se estiver 'ocupada' com um corpo, que uso, embora não o queira para mim, estará livre o meu coração para reparar em quem passa? Fixada em alguém que aprecio, mas com quem não faço quaisquer planos, não ficarei distraída? Não correrei o risco de não reparar em alguém verdadeiramente 'possível', só porque ando entretida com uma coisa sem futuro? Não me sentirei saciada e, por isso, contentada com o pouco, ao invés de procurar o muito?

Entre o tudo e o nada, há o assim-assim. Mas eu não sou mulher de assins-assins. Tendo o nada, quero o tudo. E, por isso, acho que só vale a pena apostar em alguém para quem olhe com a sensação de que talvez possa haver ali um tudo. O que significa que a minha lógica é a de esperar por alguém com quem valha a pena de facto arriscar. Sem certezas, como é óbvio, porque nada é certo ou seguro. Mas entre quem me quer só porque tem vontade de me provar e nada mais e outro que possa olhar para mim e ver mais fundo e mais longe, eu prefiro o segundo...

"Mas, ó M., os homens são suficientemente cabrões para te enganarem. Para te darem esperanças e te deixarem a pensar que querem mais qualquer coisa quando de facto..." É verdade, eu sei. Há por aí muita gente assim, homens e mulheres. Mas os filhos da mãe que já aguentei, se destruíram muita coisa, não conseguiram roubar-me a fé. Há, por isso, um espaço em mim em que guardo a esperança. Porque há homens bons, eu sei. E honestos e verdadeiros. São Homens. Estou rodeada por eles e é por isso que não esqueço que os há. Nada me garante que me calhe um na rifa. Mas vou já tendo armas para me defender de quem não vale a pena. E inteligência para me aperceber de incongruências. E capacidade para desconfiar, no meio da confiança. Nesta confiança de que um dia repararei em alguém que quererá ir mais longe e mais fundo.

Tudo isto é um bocado contra-corrente neste santo mundo em que vivo agora, não é? Talvez por isso, tem-me feito pensar...


17 comentários:

Jane Doe disse...

Excelente reflexão. Já dei e dou sempre, comigo a pensar e a sentir assim, já o disse e escrevi por outras palavras. Porque somos diferentes, e o que nos ligam são os pontos comuns. Por isso subscrevo em tudo.

Mesmo na parte da fé, pois apesar do meu impulso de dizer que não acredito sou chamada à realidade de que, também eu já fui e sou rodeada de Homens bons. Poucos, mas que valem a pena.

E penso que seja melhor viver com o nada de querer tudo que passar uma vida num acto morno de aceitar o que se nos dá.

Um beijo mf que tão bem guardo no meu coração.

(O vulgo mf do meu heart:))

Kat disse...

Este post deixou-me a pensar na quantidade de mulheres na casa dos trinta que está sozinha.. algumas nunca casaram, ou viveram com alguem, outras como é o meu caso já casaram e não deu sorte por razões distintas.. Fui trocada por uma mulher mais nova e apesar de não ser velha, fico sempre a pensar que a culpa deve ter sido minha (ele era mais novo que eu sete anos)que não estava a altura.. sofri tanto mas tanto.. já recuperei mas o coração está cada vez mais retraido.. depois do divorcio ja me envolvi com outra pessoa que me prometeu mundos e fundos.. depois de tanto resistir resolvi tentar.. pensei desta vez será diferente até porque esta pessoa disse que esperava por mim o tempo que fosse preciso.. afinal depois de pouco tempo não era bem assim.. enganou-se.. pensou que uma mais forte.. e eu.. mais uma vez.. sofro.. e penso que a culpa só pode ser minha.. que não consigo que ninguem me ame.. e cansa..

Desculpa o desabafo.. sinto cada vez mais que nunca vou encontrar alguem que me ame de verdade.. e que vou ficar sozinha.. mas o certo é que sou como tu.. prefiro não ter ninguem do que ter algo meramente fisico..

Beijinhos e mais uma vez desculpa a extensão do comentario mas este post tocou-me..

Apple disse...

Querida Piquinhos,

hoje sou eu que me leio aqui.às vezes é fácil embarcar na corrente e deixar correr, mas tb é arriscado seja porque não te envolves emocionalmente mas acabas por não ter a porta aberta, seja porque o click acontece e ficas sem base do outro lado. Somos complexos por natureza e tendemos a complicar ainda mais. No campo do amor, da intimidade e da partilha a equação complica-se com o passar do tempo, porque das duas uma, ou não cedemos ao facilitismo ou desistimos de nós e, seja como for, perdemo-nos algures no caminho.

É relativamente fácil separar o corpo do afecto mas é inegável que qd se completam é meio caminho para a perfeição possível.

Tb não sou mulher de assim assim, não gosto de coisas mornas e marinadas.

Desculpa o longo comentário, algo confuso também, mas tocaste num ponto que me tem sido delicado e sobre o qual ando em profunda reflexão.

Bjs

Princesa Canela disse...

Compreendo-te tão bem... Dei por mim ultimamente a comentar amiúde com uma amiga que nós é que andamos desfasadas da realidade. Eu, na minha ingenuidade de quem nunca parou para pensar muito nessas coisas, ainda vou ficando espantada com as estórias de paixões descartáveis que me vão chegando, em doses industriais. =/

R. disse...

Mutatis mutandis, eu gostaria de ter escrito este post.

R.

Amèlie disse...

On the nose!!!

Como diria Caio Fernando Abreu:

“Seria tão bom se pudéssemos nos relacionar sem que nenhum dos dois esperasse absolutamente nada, mas infelizmente nós, a gente, as pessoas, têm, temos - emoções.”



Bjs

Lalisca disse...

Tremendamemte bem pensado, acho que só se deve desejar o tudo, mesmo que isso tenha custos emocionais mais tarde, eu tambem sou uma crente...

beijos

Pedro Bom disse...

Eu sou Homem nos trintas, mas como me revejo neste Post.
Sinto exactamente o que dizes, também nunca casei porque sou exigente comigo e com os outros (elas no caso), sou do centro onde as pessoas são diferentes de Lisboa, para estar com alguém só por estar... não obrigado!
Gosto de pessoas equilibradas em geral, que no fundo se assemelham a mim, ou seja, no meio termo de tudo (ex: nem mt bonita, mas só isso ou o inverso e a doer olhar para ela).
É claro tenho algumas mulheres a olhar para mim... mas que julgo na sua maior parte pela posição sócio-económica, porque qualquer um serve, etc. e é este tipo de mulher que não quero e não me enche as medidas de forma alguma.
Curiosamente, à pouco na viagem para Lisboa vinha a pensar escrever um post sobre algo similar, ter conquistado quase tudo na vida, mas sentir um vazio por algo que não depende apenas de nós!!
Também alguns amigos/as me dizem, vais encontrar o teu rumo porque tens qualidades como pessoa/homem ou ainda algumas mulheres não percebem e perguntam "como é que um homem interessante não tem ninguém há tanto tempo, deves ter algum defeito".
Por outro lado, vejo também algumas das mulheres na mesma situação que vós a ter uma atitude muito nefasta do meu ponto de vista, ou seja, qualquer homem que se aproxima delas, tem a atitude tipo "olha mais um que me quer saltar para cima" não permitindo sequer o conhecimento da pessoa...
Resumindo, acho que este não é problema único das mulheres!!

mf disse...

Jane do meu coração (já tinha saudades de te dizer isto!):

"passar a vida num acto morno" resume um bocado do pensamento que não escrevi: há quem aceite qualquer coisa só para não sentir a solidão e depois surge um aborrecimento de morte, provocado precisamente por não haver uma verdadeira entrega ou uma verdadeira partilha. Acho eu...

mf disse...

Kat:
Há partes do que escreves que me deixaram de coração apertado, porque se aproxima do que vai aqui dentro. Mas eu tenho procurado lutar contra a sensação de culpa, que racionalmente percebo que não é nem foi minha (embora o coração nem sempre entenda isso) e contra também a sensação de cansaço que acho que ainda é pior, por conduzir ao desânimo e ao vazio.

No meio do deserto, contudo, eu não consigo deixar de esperar o tempo das chuvas. Há uma parte de mim que se abandona inevitavelmente à esperança. Porque o mundo também é feito de surpresas e alegrias.

Força aí. Aqui podes escrever tudo o que quiseres e do tamanho que quiseres. Eu leio, prometo, e respondo. :)

Beijo para ti

mf disse...

Apple:

"das duas uma, ou não cedemos ao facilitismo ou desistimos de nós e, seja como for, perdemo-nos algures no caminho"

Das duas três: ou não cedes ao facilitismo, ou desistes de ti, ou segues no teu caminho na certeza de que alguém vai entender porque razão não facilitas e vai tentar entrar. Eu procuro, sendo exigente, ter a porta aberta. Tenho a certeza de que agora, e embora não seja fácil para mim, vou deixando entrar algumas pessoas no meu mundo. Mas lá por abrir a porta, isso não significa abrir a minha cama à primeira. É desse facilitismo total, que vejo por aí, que falo.

Não tenho nada contra quem opta por se deixar ir na corrente. Eu não sou ninguém para julgar ou criticar e até tenho uma certa inveja de quem consegue cuidar de si assim. Só acho que não fui talhada para ser assim. Naturalmente difícil, é o que acho que sou, porque muito complexa. Mas também muito completa e muito interessante. Eh eh


PS - Ando, como tu, em profunda reflexão acerca disto e tenho a impressão que também te respondi de forma confusa...

mf disse...

Princesa Canela:
Pois... As doses industriais é que me surpreendem... Será que andamos mesmo desfasadas da realidade? :S

mf disse...

R.:
Fico à espera da reflexão masculina sobre o assunto... ;)

mf disse...

Amèlie:
Pois... O que me surpreende é que há quem parece conseguir separar emoção da parte física. E parece tão simples... Como é que isso se faz?

mf disse...

Lalisca:
Acho que ainda não te dei as boas-vindas, pois não? :D

Eu não sei se há mais custos emocionais em desejar o tudo ou em, de repente, dar consigo na mais profunda solidão, embora aparentemente acompanhado...

Beijos da toca
;)

mf disse...

Pedro:
Pois... Não é, de facto, muito fácil encontrar pessoas equilibradas num mundo em que o 'estar por estar' ou a posição sócio-económica são razões mais que suficientes para se escolher alguém.

Percebo-te muito bem nessa questão do 'deves ter algum defeito'. Fico muitas vezes a pensar qual será o meu. Por outro lado, às vezes percebo que o defeito nunca esteve em mim, mas em quem tive na minha vida. Há azares assim... Nada a fazer, a não ser continuar em frente.

Essa ideia que tens de algumas mulheres - "olha mais um que me quer saltar para cima" - é bem verdadeira e, do meu ponto de vista, pode ter a ver com várias coisas: ou são mulheres convencidas (e por isso acham que todos as desejam), ou sentiram-se fisicamente usadas nas relações que tiveram (se são bonitas, ainda é pior) ou então são mulheres que foram muito magoadas e portanto rejeitam liminarmente qualquer possibilidade de conhecimento.
Por outro lado, também há aquelas que, ao mínimo sinal de homem, se agarram que nem lapas, sufocando o pobre coitado.

Eu pelas outras não falo, até porque cada vez mais me convenço que cada caso é um caso, mas não me revejo no teu penúltimo parágrafo. Pelo contrário, tenho sempre é muitas dúvidas de que alguém me queira saltar para cima. Mesmo quando, de forma mais ou menos subtil, isso é insinuado. Enfim...

R. disse...

"R.:
Fico à espera da reflexão masculina sobre o assunto... ;)"

Não há versão masculina tal como não vejo nesta mensagem uma versão feminina, Ouriço.

Há uma atitude e postura, de sentir, de amar e de estar. Sem género, sem cromossomas.

Talvez um dia alinhave umas coisas sobre o assunto, mas não acredito que te surpreendas.

R.