quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

Inocência

O meu Piu-Piu acordou hoje às duas da manhã. Pediu para ir à casa de banho e depois veio uma frase já frequente: ‘Não quero dormir mais…’
A minha menina não gosta da noite. Não tem medo do escuro, mas sonha com monstros. Culpa de um-ser-não-humano-que-se-apelida-educadora que, no ano passado, a maltratou. Com a conivência de uma casa-que-se-apelida-infantário. Parece anedota, mas não é: perante pesadelos, chichis pelas calças abaixo ao longo do dia, agressividade, recusas em ir para a escola, etc., vários pais descobriram que havia cadeiras a prender as cabeças à hora de dormir, crianças postas de castigo na mesa dos bebés, apelidadas de ‘más’ se faziam queixinhas’ aos pais, desenhos rasgados se não estavam perfeitos (como é que aos 3 anos fazemos desenhos perfeitos?), etc. A casa-que-se-apelida-infantário foi avisada e o-ser-não-humano-que-se-apelida-educadora confirmou o seu comportamento. Mas aconteceu… nada. Pois. Quando, veio-se depois a saber, já não eram as primeiras queixas apresentadas contra a mesma figura. Nem as primeiras agressões. Nos anos lectivos anteriores existiram também. Algumas denunciadas à Segurança Social, que também não se mexeu.
No fim do ano, oito crianças abandonaram a instituição. Vão-se embora os agredidos, enquanto os agressores continuam no mesmo sítio. A casa-que-se-apelida-infantário contava resolver o problema assim: ‘os pais tiram-nos e esquecem’.
Tiveram azar, desta vez, com os pais que lhes apareceram à frente. O meu Piu-Piu está a ser acompanhado e recupera agora a alegria, a serenidade, a autonomia, a vontade de escrever o seu nome, de aprender a fazer contas e de desenhar sem ser a preto. E o caso seguiu para tribunal, passando por cima da SS, com outros que se juntaram. Para surpresa da casa-que-se-apelida-infantário, que tremeu ao descobrir que há pais que não esquecem, porque não querem para os outros o sofrimento que lhes entrou pela casa dentro.
Eu sou católica. Tenho uma Fé posta à prova várias vezes, que esclareci e aprofundei. É uma Fé discernida, madura, feita de reflexão e de escolha consciente de valores e opções. Uma Fé que me faz saber que, se há vezes em que devemos dar a outra face, há outras em que é preciso pegar no chicote para expulsar vendilhões do templo. E custa-me ver uma IPSS da minha Igreja cair nesta podridão. Eu não meto todos no mesmo saco. Considero-me uma pessoa boa que trabalha com e na Igreja e há gente muito boa nela também que faz muito, imenso pelos outros. Há padres também que nos ajudaram e que disseram inclusive ‘eu, por muito menos, já despedi muitas!’ Mas sei que basta uma ou duas figuras de responsabilidade actuarem assim para estarem a contribuir para o mal do mundo, logo numa Instituição que defende o Amor.
Quem mata a inocência de uma criança mata o vislumbre do Paraíso. Mata, por isso, Deus. E Ele, às vezes, parece tardar. Mas eu creio que Ele, apesar disso, não falha… E sabe quando usar o chicote...

2 comentários:

Marisa disse...

Fizeram bem em não esquecer e em expôr a situaçõa e, mais, levá-los à justiça!

Tudo que mexe com crianças mexe muito comigo e olha, nem quero imaginar o que faria se soubesse que maltratavam o meu filho. Vocês agiram bem e, como dizes, não devemos meter as pessoas todas no mesmo saco. As IPSS são, cada vez mais, essenciais. Se há pessoas que não deviam lá estar, têm de sair!

mf disse...

Marisa:
O mal é não ter saído quem devia, minando toda uma instituição que não tem culpa. É pela hipocrisia e cobardia de uns que depois muitos pagam...